USP LANÇA GUIA GRATUITO PARA AJUDAR FAMÍLIAS A CONTROLAR O USO DE TELAS POR CRIANÇAS
Publicação reúne orientações científicas para pais e responsáveis sobre celulares, vídeos e outros dispositivos digitais nos primeiros seis anos de vida. Material ensina a estabelecer limites, escolher conteúdos adequados e tornar a tecnologia uma aliada do desenvolvimento infantil.
O uso de celulares, tablets, computadores e televisores faz parte da rotina de muitas famílias. Mas como estabelecer limites para as crianças sem transformar a tecnologia em motivo de conflitos dentro de casa? E como identificar se um vídeo considerado educativo realmente contribui para o aprendizado dos pequenos?
Para ajudar pais e responsáveis a responder a essas perguntas, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) lançaram o guia digital gratuito Crescendo em um mundo digital: Um guia para o uso saudável de telas por crianças pré-escolares. A publicação oferece orientações práticas para famílias com crianças de até seis anos e busca transformar conhecimentos científicos em atitudes que possam ser aplicadas no dia a dia.
Com 32 páginas, linguagem acessível e apresentação visual de fácil leitura, o material está disponível para consulta e download gratuito no Portal de Livros Abertos da USP. A iniciativa foi desenvolvida por pesquisadores vinculados ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
📘 ACESSE O GUIA GRATUITAMENTE
Leia ou baixe o material original diretamente no portal oficial da Universidade de São Paulo:
O desafio de equilibrar tecnologia e infância
A presença das telas na infância é um desafio crescente para as famílias. Os dispositivos podem oferecer entretenimento, informação e oportunidades de aprendizagem, mas o tempo excessivo diante das telas, especialmente quando substitui atividades importantes, exige atenção.
Segundo as questões abordadas no guia, o uso inadequado pode reduzir oportunidades de interação social, brincadeiras, atividade física e convivência familiar. Essas experiências são fundamentais para o desenvolvimento da linguagem e das habilidades cognitivas, motoras e socioemocionais, além de contribuírem para a qualidade do sono.
Outro ponto de preocupação é o tipo de conteúdo consumido. Vídeos muito acelerados, conteúdos com violência, publicidade disfarçada e sequências curtas reproduzidas continuamente podem estimular o consumo excessivo e dificultar a autorregulação, dependendo da exposição e das características da criança.
O guia chama a atenção para formatos populares em plataformas digitais, como os vídeos curtos disponíveis no YouTube e no TikTok. A recomendação é que pais e responsáveis não observem apenas quanto tempo a criança passa diante da tela, mas também o que ela assiste, como esse conteúdo é apresentado e quais atividades estão sendo deixadas de lado.
O que os pais podem fazer na prática?
Em vez de propor simplesmente a proibição dos dispositivos, os pesquisadores apresentam estratégias para organizar o uso da tecnologia e torná-lo mais adequado à idade e à rotina infantil.
Entre as orientações estão:
• Estabelecer limites e horários: criar uma rotina previsível para o uso de celulares, tablets e televisão.
• Reservar momentos sem telas: priorizar refeições, brincadeiras, passeios e períodos de convivência familiar.
• Evitar dispositivos antes de dormir: proteger a rotina noturna e favorecer a qualidade do sono.
• Selecionar os conteúdos: dar preferência a materiais apropriados à idade, com ritmo moderado e sem violência ou publicidade inadequada.
• Assistir junto com a criança: conversar sobre o que aparece na tela, fazer perguntas e relacionar o conteúdo com situações da vida real.
• Avaliar o conteúdo educativo: verificar se o vídeo realmente apresenta informações e atividades que contribuem para a aprendizagem, em vez de apenas utilizar esse rótulo como estratégia de atração.
Essas medidas procuram ajudar os adultos a estabelecer uma relação mais equilibrada com a tecnologia, respeitando as necessidades de desenvolvimento das crianças.
Controle parental ajuda, mas não substitui a presença dos adultos
O guia também destaca que os recursos de controle parental e os filtros oferecidos pelas plataformas digitais podem contribuir para a proteção infantil. Entretanto, essas ferramentas não substituem o acompanhamento dos pais, responsáveis e educadores.
Rafael Julio Magrini Cunha, doutorando em Psicobiologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP) e coautor da publicação, ressalta a importância da participação humana na orientação das crianças durante o contato com o ambiente digital.
A proposta é combinar os mecanismos tecnológicos de proteção com a supervisão cotidiana, ajudando os pequenos a compreender o que assistem e a desenvolver hábitos mais seguros.
Na prática, isso significa que entregar um celular à criança com filtros ativados não encerra a responsabilidade dos adultos. A escolha dos vídeos, a observação do comportamento infantil e a conversa sobre o conteúdo continuam sendo partes importantes desse processo.
Pesquisa científica transformada em orientação para as famílias
O trabalho foi desenvolvido por Andréia Schmidt, professora do Departamento de Psicologia da FFCLRP-USP, em conjunto com sua equipe do Laboratório de Estudos Básicos e Aplicados em Análise do Comportamento (Lebac).
A elaboração do guia se apoia em pesquisas realizadas em diferentes países, incluindo estudos conduzidos pela própria equipe, e em recomendações de organizações ligadas à saúde e à pediatria.
De acordo com os pesquisadores, a publicação surgiu da identificação de dificuldades enfrentadas pelas famílias diante da expansão das tecnologias digitais.
Uma delas é conciliar o uso dos dispositivos com as demais atividades da rotina. Outra é encontrar informações confiáveis em meio à grande quantidade de orientações disponíveis na internet. A terceira é transformar o conhecimento científico em decisões práticas, que funcionem na realidade de cada casa.
Ana Julia do Nascimento Silva, doutoranda em Psicobiologia na FFCLRP-USP e coautora do material, destaca o desafio de equilibrar a rotina familiar e promover hábitos saudáveis de utilização da tecnologia.
Já Janine Albuquerque Nogueira, mestranda em Psicobiologia na mesma instituição e também coautora, chama a atenção para a dificuldade que muitos cuidadores encontram para selecionar orientações fundamentadas em evidências científicas.
O guia procura aproximar a produção acadêmica da vida cotidiana, oferecendo critérios que podem ajudar os responsáveis a tomar decisões mais conscientes.
Como saber se um vídeo é realmente educativo?
Um dos aspectos importantes da publicação é a orientação para que os adultos não confiem apenas no título ou na aparência de um conteúdo.
Um vídeo pode utilizar cores, músicas, personagens infantis e expressões como “aprenda brincando”, mas isso não significa, necessariamente, que apresente uma experiência de aprendizagem consistente.
Por isso, os responsáveis podem observar se o material apresenta informações compreensíveis, se é apropriado à idade, se estimula a curiosidade e se oferece oportunidades para a criança pensar, conversar e relacionar o que assistiu com o mundo ao seu redor.
Também é importante observar se a publicidade está presente de maneira explícita ou disfarçada e se o formato incentiva a criança a permanecer assistindo continuamente, sem pausas para outras atividades.
A participação dos adultos ajuda a transformar o consumo passivo de vídeos em uma experiência de interação, conversa e descoberta.
Tecnologia não precisa ser inimiga da infância
A proposta dos pesquisadores não é eliminar as telas da vida das crianças, mas incentivar um uso mais consciente, equilibrado e compatível com cada fase do desenvolvimento.
Em uma realidade na qual os dispositivos digitais estão cada vez mais presentes, a orientação dos adultos continua sendo fundamental. Limites claros, conteúdos adequados, momentos de convivência e participação ativa podem ajudar as famílias a reduzir riscos sem ignorar as possibilidades oferecidas pela tecnologia.
O material da USP representa uma oportunidade para pais, mães, responsáveis e educadores acessarem informações científicas em linguagem simples, sem precisar recorrer exclusivamente a publicações fragmentadas nas redes sociais.
O acesso é gratuito e pode ser feito de qualquer lugar.
📚 Leia o guia completo: Crescendo em um mundo digital — Portal de Livros Abertos da USP.

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